A mente repartida
Dentro do polvo existe algo que nenhum outro animal complexo possui: um sistema nervoso que se recusa a ficar em um só lugar. São cerca de 500 milhões de neurônios — na mesma ordem de grandeza de um cão — mas aproximadamente dois terços deles não estão na cabeça. Estão distribuídos pelos oito braços, organizados em cordões nervosos que funcionam como pequenos centros de decisão.
Na prática, cada braço explora, toca, prova e reage com notável independência. Enquanto o cérebro central define a direção geral — investigar aquela fresta, recuar daquela sombra —, os braços resolvem sozinhos os detalhes: como se enrolar numa pedra, como manipular uma concha, como reconhecer pelo tato e pelo paladar o que vale a pena agarrar. Experimentos mostram que os braços executam movimentos coordenados mesmo sem instruções diretas do cérebro.
Para os neurocientistas, o polvo é um convite a repensar o que chamamos de mente. A nossa é centralizada, hierárquica, comandada de cima. A dele é uma federação: um animal que não pensa apenas com o corpo, mas através dele.
Mesmo separado do corpo, um braço de polvo ainda reage a estímulos por um tempo — a rede local de neurônios continua funcionando sem o cérebro central.